O tema da alavancagem em fundos de investimento chamou a atenção de muitos investidores no período da crise atual. Muitas das perdas elevadas entre os fundos de maior nível de risco se deram em estratégias que faziam uso de alavancagem, e o temor em relação a o que mais poderia acontecer com esses fundos aumentou.
“Será que o meu fundo vai quebrar?”
“Será que o gestor foi irresponsável nesta estratégia?”
Nesse contexto, o intuito desta publicação não é defender se o uso de alavancagem é bom ou ruim – mesmo porque não podemos generalizar uma opinião como essa para as diversas estratégias de fundos e os diferentes perfis de investidor. O objetivo aqui é trazer à luz os conceitos relacionados à alavancagem (motivos de alegria ou tristeza), para que o investidor tenha maior clareza sobre o assunto e possa tomar decisões de investimento embasadas.
O que é a alavancagem?
No sentido figurado, alavanca é uma força que impulsiona e, trazendo para o mundo das finanças, alavancar seria potencializar um investimento. Em termos técnicos, o fundo de investimento está alavancado quando tem uma exposição financeira maior que seu patrimônio líquido. Isso é feito comumente por meio de derivativos, com o intuito de potencializar o retorno, seja na compra ou na venda de determinados ativos.
Formas comuns de alavancar:
- Mercado de futuros: o fundo pode ter exposição financeira maior que seu patrimônio líquido comumente por meio de contratos futuros de taxas de juros (futuro de DI), por exemplo.
- Mercado de opções: ao comprar uma opção de compra (call), o fundo pode ter uma exposição elevada a uma ação, mesmo desembolsando um baixo volume financeiro (o prêmio da opção).
- Mercado de termos: por meio de operações a termo no mercado de ações, os fundos podem aumentar a exposição em ações com o compromisso de desembolsar o valor financeiro apenas em uma data futura.
Por que investir em fundo que pode alavancar?
A alavancagem é uma forma utilizada pelo gestor para buscar um nível particular de retorno ajustado ao risco, isto é, para alcançar o que se propõe a entregar em termos de objetivos de retorno e volatilidade. E para que o gestor alcance objetivos elevados, muitas vezes é preciso alavancar.
Investir em fundos que podem alavancar é, então, ter na carteira produtos com objetivos de retorno e volatilidade potencialmente maiores. E isso pode ser uma ótima alternativa para ajustar o nível de risco total da carteira do investidor. Fundos mais arriscados trazem retornos potencialmente maiores, mas é fundamental que estejam devidamente calibrados na carteira, senão podem trazer muita dor de cabeça…
Um exemplo marcante de ganhos expressivos com alavancagem foi o de um fundo de ações XYZ, lançado na década passada, que acumulou retorno de 878% – incrivelmente maior do que a alta de 326% do Ibovespa – no período abaixo, utilizando-se de alavancagem excessiva:

E o que pode dar errado?!
Pegando o mesmo exemplo anterior, o fundo XYZ, ao atravessar o início da crise de 2008 – um cenário de stress – viu todos os seus ganhos acumulados evaporarem em pouco mais de 7 meses: uma perda de 98,5% do patrimônio líquido. Foi do zero ao topo, ao zero. Uma perda tão expressiva chega a ser um exemplo raro na história da indústria de fundos, mas é reflexo de uma estratégia que tomava riscos de uma maneira igualmente expressiva.

Em exemplos não tão raros quanto o caso acima, mas de fundos que também usam alavancagem, é possível haver perdas excessivas – às vezes muito maiores do que o que os investidores sequer imaginariam – que estão diretamente relacionadas aos riscos que o fundo assume.
Assim, é fundamental que o investidor esteja ciente do perfil de risco de um fundo de investimento antes de realizar uma aplicação. Isso pode ser verificado pelo objetivo de volatilidade do fundo, ou simplesmente analisando-se a sua volatilidade histórica. É possível também verificar quais foram as quedas máximas que o fundo já teve no passado, o que pode ser feito de maneira prática no comparador de fundos da Vérios, na seção “underwater” como no exemplo de um dado fundo abaixo:

No exemplo, o gráfico mostra que o fundo chegou a ter uma queda de cerca de 18% no período da crise.
Ao analisar o histórico passado de um fundo, por mais que isso não garanta seu comportamento futuro, é possível alinhar melhor as expectativas do investidor.
Os alertas que ficam
A possibilidade de alavancar é bastante comum entre estratégias de fundos com maior nível de risco. Entretanto, sugiro não pensar no rótulo “alavancado x não alavancado” – afinal, existe um conjunto diverso de estratégias para esses fundos, cada qual com seus riscos específicos e sistemáticos e, principalmente, cada qual com seus respectivos objetivos de retorno e volatilidade.
O que é fundamental para todo investidor é avaliar e estar ciente do nível de risco apresentado por cada fundo de investimento, a partir de seu objetivo de volatilidade, sua volatilidade histórica e as perdas que já teve no passado. Nesse sentido, a possibilidade de alavancar é um elemento que permite o maior nível de risco perseguido pelo fundo.
É preciso estar atento inclusive para fundos que apresentem retornos muito superiores aos seus concorrentes e aos índices de referência – ainda que não tenha tido quedas expressivas, os ganhos podem ser fruto de tomada de risco excessivo – e um dia o efeito contrário pode chegar.
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